Claudia Lara
TEXTOS
O PERCURSO DO OLHAR - FERNANDO A. F. BINI


Quatro jovens artistas, quatro percursos semelhantes, mas quatro olhares diferentes sobre a arte contemporânea. São quatro amigas que vivem e trabalham em Curitiba, Estado do Paraná, e circulam, desde o final dos anos 90, pelos espaços do Solar do Rosário quando então se reuniram para uma exposição coletiva e itinerante, chamada “Para Los Ojos” (2010/2011), na Galeria do Solar do Rosário, em Curitiba, Paraná, na Sala Aires de Córdoba, em Córdoba, Espanha, na Galeria Beatriz Telles, em Florianópolis, Santa Catarina, e na Estação Cabo Branco, Ciência, Cultura e Artes, em João Pessoa, Paraíba.

Por serem quatro artistas, remeteram meus pensamentos à Tetralogia do compositor alemão Richard Wagner, pois a relação que elas quatro sugerem é sempre entre a profundidade e a superfície, o espetáculo e a simplicidade. O conjunto wagneriano é composto também de quatro óperas, começando pelas filhas do rio Reno, guardiãs de seus tesouros e que partem da quietude, do silêncio das profundezas da água do rio ao movimento ondulante e fantástico provocado pelas ninfas.

“A água é a senhora da linguagem fluida” nos disse Gaston Bachelard, é esta fluidez, a sua transparência, o líquido que se transforma nunca estando completamente acabado, pois depende do espaço do qual toma a forma. Estas quatro artistas também, como quatro Valquírias, são guerreiras, figuras poéticas que determinam o seu destino restabelecendo a ordem da pintura como pintura, mas que absorveram tudo o que a moderna tecnologia acrescentou para ela.

Fayga Ostrower nos ensinou que a obra de arte sempre é produto da intuição, e deve continuar sendo um enigma, que seja tão bom para nós como para o artista criador e tomando como exemplo, Wagner na Tetralogia, não dá uma solução para o enigma humano da criação: seu significado continua desconhecido.

Essas moças descobriram o poder mágico da natureza e as suas mais diversas metamorfoses, a transfiguração do mundo em que vivemos, as paisagens desordenadas, os prédios, as casas, as ruas, os telhados, e os objetos do nosso entorno cotidiano. Como na Ópera, assistimos a luta do amor, associado à natureza, pela liberdade. Como escreveu uma outra Valquíria (a artista Walkiria Novais): “A pintura é isso: um flanar pelo mundo, pois sempre somos convidados pelo olhar para sairmos de nós mesmos e passear pelas coisas, a apalpar as coisas, repousar sobre elas, viajar no meio delas.”

Alguns detalhes ainda nos chamam a atenção com relação a essas quatro artistas, é que algumas delas participaram do Centro de Arte Contemporânea Edilson Viriato, que é um importante espaço de debates, de estudos e de trabalho. É um local de convivência dos artistas, necessário para a troca de experiência e a discussão, mas é também um atelier tanto para a iniciação artística como para o aperfeiçoamento e atualização de artistas já iniciados. Uma característica importante do atelier é fazer com que o neófito se lance na liberdade de criar e, para os demais, é um impulso para libertação do seu imaginário. O outro é que algumas delas também foram alunas do Atelier de Luiz Carlos de Andrade Lima, excelente professor de desenho e pintura que marcou toda uma geração de artistas à partir dos anos 80 quando abriu sua Galeria e Escola de Artes, até quase sua morte em 1998. Não podemos esquecer também o trabalho pedagógico de Luiz Carlos na Escolinha de Artes do Colégio Estadual do Paraná, na Casa Alfredo Andersen e na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Além de frequentarem os ateliers de desenho e pintura do próprio Solar do Rosário – Centro de Arte e Cultura. Acredito que estas artistas, hoje com suas obras, são o testemunho e prestam homenagem a estes ateliers de arte, responsáveis pela qualidade artística de muitos artistas contemporâneos.

A obra de Claudia de Lara (Claudia de Lara Samways) é gritante, ela gosta do espetáculo e do espetacular das cores que ressurgem na técnica pictórica. Deslumbra-se com as possibilidades das construções cromáticas sem dívidas para com o passado, quer fazer e permanecer na pintura. Deixa transparecer que gosta de pintar e a pintura parece ter sido uma descoberta, como ela mesma afirma. Descobriu as possibilidades da pintura contemporânea à partir de uma viagem à Europa. Decidiu então não perder mais tempo e transformar tudo o que dispunha em pintura. E foi assim que surgiu a sua primeira série de quadros que ela denominou de Cotidiano Desorientado (em 2006). São imagens do seu cotidiano, algumas já estavam gravadas na memória e que ela reencontrava em fotos antigas de família, outras são tiradas do seu entorno, espaços arquitetônicos, detalhes de passagens ou detalhes de objetos que permanecem à nossa volta.

Nesta série ainda é forte o traço do desenho; a gestualidade e o grafismo possivelmente atestam a influência do desenho de Luiz Carlos de Andrade Lima, mas como ele mesmo gostava de citar a frase de Zaratustra: “Renegue teu mestre se quer que goste de ti”, Claudia sai a procura de outros caminhos.

Sua obra se desenvolve em séries, a seguinte ela denominou Slow-Motion (2007/2008), os seus desenhos começam a tomar o aspecto pictural. São claras as raízes da linguagem do cinema, mas que explodem em coloridos brilhantes. Ela parte da imagem fotográfica que é manipulada através do computador e, durante este processo, introduz o efeito pictórico. Pode-se notar também a preocupação no trabalho de superfície, de elaboração da pintura. Na série Brechó (2009/2012), as imagens são retiradas de antiquários, mas que têm uma referência ao movimento, como ventiladores, bicicletas, motos, lambretas ou rodas. Os detalhes se agigantam como também as telas, são simples composições com elementos planos de forte referência à Pop-art. São justaposições de elementos inorgânicos, industriais e que jogam com formas e espaços de tendência entrópica.

Ela continua com a planidade do quadro (que vem desde Cézanne), suas formas são multifacetadas e não se preocupa com a coerência entre as séries. Nos parece que cada obra existe em separado. Assim ela continua na série Diversão (2010/2012), que se intercala com a série Brechó; nesta o motivo está nos parques de diversões, nas feiras: a Roda-gigante, o Carrossel, a Montanha-russa, são os seus modelos tratados como reproduções mecânicas que se aproximam das imagens kitsch, oriundas também da Pop-art. Como ocorrerá também na série Estruturas (2012), é o lado do espetáculo que lhe interessa, do espetáculo prosaico, e do qual ela retira detalhes que transforma em poesia cromática. As Estruturas tendem à abstração, mas não o são, são aproximações, ampliações ou observações através de estruturas como grades, janelas ou escadas, sempre se situando entre o acontecimento e o acidente pictórico.

Claudia relata que, ao pensar neste conjunto de obras para a organização deste livro, relacionou a fragmentação das formas que usa desde o início do seu trabalho, com retalhos de tecidos, formas planas coloridas numa espécie de patchwork (ou poderíamos dizer, de uma colcha de retalhos), associadas à memória da sua mãe que tinha loja de roupas e escolhia os padrões de tecidos através de catálogos com retalhos. E que o gosto pelas estruturas metálicas, pelas ferragens Art Nouveau, também podem ter origem nos catálogos que admirava na serralheria de seu pai e de seu avô.

É a ação da sua memória. Somos prisioneiros de nossa memória; quando libertamos o nosso imaginário dos condicionamentos que fomos adquirindo durante a nossa existência, esta memória pode desabrochar em maravilhas porque ela vem embalada pelo sonho. É Charles Baudelaire, em suas Curiosités esthétiques, quem afirma: “Um bom quadro, fiel e igual ao sonho que o gerou, deve ser produzido como um mundo. [...] ... dando cada nova camada mais realidade ao sonho e fazendo-o subir de um grau no sentido da perfeição”.

Nos anos 80 do século passado, tanto no Brasil, quanto em outras partes do mundo, assistimos a uma diminuição das experimentações e, com isso, a um ressurgimento da pintura, contra a desmaterialização do movimento conceitual. Retorna-se ao metier do pintor com uma vontade imensa de “por a mão na massa” (tenere le mani in pasta), na expressão de Achille Bonito Oliva ao se referir ao movimento da Transvanguarda Italiana. A arte retorna aos seus motivos internos, ela quer novamente encontrar o que está dentro de si, com todo o prazer e risco que isto possa conter. São outras possibilidades de fazer pintura; seja o gesto livre da pincelada como uma forma de retorno a subjetividade do artista, ou seja, sem ter preocupações em definir uma linha de trabalho. Partem das influências expressionistas em confronto com a experiência do Pop-art. As formas planares do cubismo, sem linha de terra ou linha do horizonte e na qual forma e fundo se fundem se confundem, não há mais hierarquia.

Assim Dani Henning (Daniele Henning Leite Cavol) opera também com fragmentos, com imagens recortadas, alegres, festivas, coloridas, decorativas, sem medo de errar. Formada pela Universidade Federal do Paraná, trabalhou muitos anos com arte e educação, dedicada a educação especial de crianças. Sua proximidade com a arte faz com que desenvolva seus sentidos à partir dos odores do mundo. Assim a pintura vai entrar um pouco ao acaso em sua vida, ela vem das suas experiências com a cor e a textura. Se desenho é traço, sabemos que pintura é cor. Proprietária de um bom desenho, quando começa a expor em 1999, sua pintura parece ter sido inspirada mais nos grafites do que na grande tradição histórica da pintura.

Sua observação sensível do mundo vem do prazer dos seus passeios ao ar livre e da atenção que faz aos objetos que a circundam: cadeiras, maçãs ou bicicletas. É ciclista e gosta de pedalar e assim sua obra é metáfora poética do seu prazer transformado em exercícios do traço, de gestualidade e de grafite mural ou garatujas. Segundo a artista “a bicicleta sugere liberdade, leveza, movimento.”

Começou a traduzir nos quadros tudo aquilo que sente pedalando e diz: “todo mundo que vê ou quem fala sobre a [minha] obra descobre uma liberdade muito grande, descobre uma sensação de espaço muito aberto, tudo aquilo que a gente sente pedalando. Então esta série de bicicletas eu adoro por causa disto, tem muito a ver com a minha vida.” (entrevista em 2011)

Desde as cadeiras e as maçãs, a sua obra relaciona rusticidade e singeleza, numa técnica simples, sem compromissos com a tridimensionalidade, ela mostra objetos comuns singelos e naturais, mas também atemporais. Aquilo que parece espontâneo é, no entanto, muito trabalhado, lapidado, na própria expressão da artista: “a cada pincelada uma resposta, um crescimento”. (2012)

À partir de 2010 e 2011 surgem as paisagens. São paisagens urbanas ou da periferia de cidades, os parques, nas quais ela mostra sua observação da atmosfera - “passeio na chuva”, “caminhos paranaenses” - com ou sem bicicletas. Algumas vezes, o desenho superposto das bicicletas começa a formar um fundo particularmente pictórico, o traço vai cedendo à cor.

Por vezes, as paisagens se revestem de interesse maior para a artista, ou então são observações da “sua janela” e o geométrico das aglomerações urbanas se combinam com as estruturas geométricas da própria janela.
Impossível não lembrar das janelas de Klee, de Delaunay ou de Chagall as quais destacam o cromatismo da paisagem urbana. Leon Baptista Alberti, do Renascimento Italiano do século XV, já chamava atenção para esta tendência geométrica da janela comparando o quadro, metaforicamente, a “uma janela aberta para o mundo” (a “Janela” de Alberti) que o poeta Guillaume Apollinaire completa com seu poema “As Janelas”: “Do vermelho ao verde todo amarelo morre”. Os quadros de Dani Henning transbordam em cor, quase como numa solução impressionista, ela mostra as diversas horas do dia e os diversos ângulos de visão de uma mesma paisagem.

Colorações feéricas, mas sutis, como a personalidade da artista. Para Maria Cecília Noronha, “Dani é uma artista jovem, que tem uma maneira de ser tímida e silenciosa e que encontrou, em um momento especial de sua vida, um signo capaz de dialogar com suas alegrias e inquietações.” (Pintores Contemporâneos do Paraná, v. 5, 2005).

Volto a Gaston Bachelard para quem “a imaginação inventa mais que coisas e dramas; inventa vida nova, inventa mente nova; abre olhos que têm novos tipos de visão. Verá se tiver «visões»” (Bachelard, A água e os sonhos). As pinturas de Sandra Bonet (Sandra Dequech Bonet) são um minucioso estudo da figura humana. Formada pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, também foi aluna de Luiz Carlos de Andrade Lima e vem daí a qualidade e o cuidado que tem na execução da pintura, desde os esboços, as cores e as graduações de claro-escuro, que vão idealizando a sua obra, conforme afirmou Adalice Araújo.

Sua pintura se libera depois de frequentar o Centro de Arte Contemporânea Edilson Viriato, e começa a abandonar a cor pelo monocromo tonal. Sem a cor, centra-se mais na figura humana, que agora está solta num fundo branco, isolada em um espaço metafísico, esvaziado, mais próprio para a reflexão sobre o ser humano. Maria Cecília Noronha fala que “há os artistas que se mostram inteiros, há os que são reticentes”, a obra de Sandra Bonet parece querer esconder sua alma, mas é impossível. Ela consegue permanecer com seu espírito romântico procurando as afinidades entre os elementos naturais e os seus estados de alma.

A figura pintada é sempre a representação de um personagem, é a forma exterior de um corpo, o seu aspecto mostrado em duas dimensões. Ela propõe repensar a figura e a figuração à partir da noção de mímesis. Ela parte de fotos onde o aspecto natural já foi reduzido ao bidimensional e aplica aí o efeito pictórico. São silhuetas que representam emoções, mas sem violência ou tragicidade, reforçadas pelo fundo inexistente, mas que não caracteriza um espaço vazio, é metafísico, o não-lugar.

Nestas obras nota-se a presença de crianças, as múltiplas e contraditórias emoções que perturbam a infância mesmo quando elas mantêm seus olhares constantemente animados. Sandra Bonet quer nos fazer ver as crianças, não é uma forma de contar a criança que fomos, mas fazer pensar o que habita no pensamento infantil e que possa ser dividido pelo adulto. Não há céu, nem terra, as figuras estão isoladas ou em pequenos grupos, é uma indagação sobre seu tema, ao mesmo tempo em que é “um relato de alma” como quer Maria Cecília Noronha.

Nesses trabalhos monocromáticos onde a textura pictórica se deixa ver claramente, ela renuncia à expressão do olhar infantil, faz surgir outra imagem da infância, a do pensamento diverso e confuso a que chamamos infantil. A criança solitária é o reconhecimento da sua autonomia, de seu desejo de liberdade, que é o mesmo do artista.
Nos fundos brancos ela rompe com o espaço da circunscrição, do ambiente familiar ou escolar, do ambiente dos jogos ou dos brinquedos, sempre construído pelos adultos, então Sandra pergunta, qual é o espaço da criança? Qual é o espaço da pintura?

A sua pintura é um procedimento complexo que inclui a semelhança, mas dando conta dos conceitos originados pela crise da representação mimética. A pintura como lugar, ao mesmo tempo, da perda e da afirmação da realidade. Agora está fazendo paisagens, que também tendem à monocromia e ao isolamento. Um trabalho maduro de textura e matéria pictórica. Elas nos lembram Cézanne, quando ao “imitar” a Montanha Sainte-Victoire estava mais atendo às suas “pequenas sensações”. A pintura de Sandra deixa clara a subjetividade do seu “realismo”; além da semelhança é o caráter do artista que se afirma. Torna visível a realidade conforme Klee: “À partir de elementos formais abstratos, indo além de sua união para compor seres concretos ou coisas abstratas como números e letras, por fim é criado um cosmos formal ...”. (Klee, Confissão criadora)

Após o movimento Pop no início dos anos 60, a pintura toma como modelo as imagens da comunicação de massa, seus assuntos, suas texturas, suas cores e também sua composição. Ela se aproxima da cultura popular, dos objetos cotidianos ou dos modelos narrativos das histórias em quadrinhos ou mesmo do cinema. Nela há um diálogo direto com o observador, incluindo a utilização da linguagem verbal. É nesta jovem geração com liberdade de pintar que se inclui Sandra Hiromoto (Sandra Yoshie Yamakawa Hiromoto). Formada em Design Gráfico pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Sandra começou suas pesquisas pictóricas frequentando o atelier de Figura Humana com Lélia Brown no Solar do Rosário em Curitiba (1998/99). Participou também do Atelier de Arte Contemporânea de Edilson Viriato de 1999 a 2010.

Apaixonou-se pelo que ela chama de “estética urbana” e este encantamento a faz se desligar dos objetos íntimos para se dedicar a representação dos elementos que compõe as metrópoles, inclusive interferindo nelas com ações e intervenções. Mas a herança Pop é muito forte nela, principalmente na sua relação crítica de agitar consciências. O apelo Pop foi uma referência artística para quase todos os artistas depois da década de 80, quando houve uma universalização da cultura de massa.

Roy Lichtenstein declarou em 1987, se referindo aos novos artistas que “quase todo mundo hoje tem um toque de Pop. Eu vejo até Pop-art nas pessoas abstratas”. Para Sandra o Pop também entra pelo caminho do Design, como ela mesma afirma: “... o forte apelo do design, a discussão com os objetos que nos rodeiam, nossos objetos de afeto, aqueles que acompanham a nossa vida e, às vezes, minha formação de designer, o trabalho com livros e as palavras presentes, brincam com o nosso imaginário. Tomam vida, os objetos, as palavras, as letras.” (2009)

Sandra Hiromoto também trabalha em séries que, podem ou não, estarem ligados a uma exposição como, por exemplo “objetos e afetos”, exposição na Galeria do Solar do Rosário, em Curitiba, em 2008. A série “Óbvio Cotidiano” nasce de sua experiência do contato com as grandes metrópoles (Berlim, Madrid ou Paris) e também da obra Pop do artista Claes Oldenburg, sobre quem fez uma monografia de conclusão de curso. Esta exposição depois se tornou uma “intervenção” realizada na Galeria Júlio Moreira, em Curitiba (2012).

É muito difícil para um Oriental, mesmo tendo nascido no Ocidente, se livrar da carga tradicional de sua cultura. O tema do óbvio e do cotidiano retorna à obra de Sandra quando da sua viagem ao Japão e, na volta, na procura de suas imagens de infância. Diz ela “o quimono faz parte do cotidiano dos japoneses, é o obvio, mas para nós é o diferente”. Além do elemento ruidoso da Pop-art, a sua obra guarda uma prática contemplativa, deixando claro que a relação entre o eu e o mundo é sempre ilusória – impermanente – a arte surge como uma atitude da mente e do corpo, portanto da vida. Na estética oriental o belo é sempre incompleto, imperfeito ou “impermanente”, pois a beleza está contida em qualquer coisa, ela é a alma das coisas – uma poesia não precisa de palavras, basta um gesto de mão.

Entre o design e a arte, entre o tecnológico e o espiritual, tudo é interligado e necessário para o nosso autoconhecimento: “todas as coisas do universo são conectadas”. Ela se apropria dos meios tecnológicos e práticos à sua disposição, a fotografia digital, o estêncil, o spray e a pintura, para realizar esta conversa com os objetos e o seu entorno. O que ela pretende é desencadear no espectador um despertar, à partir dos objetos do nosso cotidiano, propor um jogo cuja experiência se realizará no espírito de ambos.

É por estas razões que ela também se serve das palavras, pois elas estão no nosso cotidiano e reforçam o aspecto plano do seu trabalho. Roland Barthes, depois de sua viagem ao Japão afirmou: “A língua desconhecida, da qual capto no entanto a respiração, a aeração emotiva, numa palavra, a significância pura, forma à minha volta, à medida que me desloca, uma leve vertigem, arrasta-me em seu vazio artificial, que só se realiza para mim: vivo no interstício, livre de todo sentido pleno.” (Barthes, O Império dos Signos) Como num cordel, Sandra afirma: “Dentro do/ Possível/ vou entrar/ nos seus/ pensamentos...” – “Nem ferir, nem preferir, o êxtase é efêmero”.

Esse aparente formalismo, a qualidade do seu fazer artístico, a sutil reminiscência, as alusões às “colagens”, às repetições, às reinterpretações que formam a memória de fundo de seu trabalho, é o que fundamenta a qualidade de sua relação com a tradição. Não é possível falar de Sandra Hiromoto sem pensar em Bachelard para quem “é preciso que ele [o olho] seja belo para ver o belo. É preciso que a íris do olho tenha uma bela cor para que as belas cores entrem em sua pupila.” (Bachelard, A água e os sonhos) Temos que preparar nossos olhos para a aventura que ela nos propõe, a do “percurso do olhar”.

Estas quatro artistas nos mostram que a pintura contemporânea é um meio como qualquer outro, agora livre de seu peso, da sua tradição pictórica milenar, ela afirma o prazer do gesto, a disponibilidade tecnológica e a espontaneidade. É o gosto pelo demonstrativo, o efeito, o espetáculo, as cores “flashes” vibrantes, os procedimentos híbridos e a curiosidade de ir mais longe, refletindo sobre a condição humana, participando de um estado de alerta que nos acorda e nos transforma para a realidade que está em torno de nós.

 

Fernando A. F. Bini
Professor de História da Arte e Crítico de Arte
(Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA e Association International des Critiques d’Art - AICA)

Outubro de 2012


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