Claudia Lara
TEXTOS
DEDICAÇÃO A PINTURA - JOÃO COVIELO


1.
Os artistas contemporâneos já não precisam defender posições. Felizmente, não é preciso mais defender uma obra preocupada apenas com seu próprio ato de pintar, como defendia Clement Greenberg. Esses artistas podem tanto refletir sobre o tema a ser pintado, como podem esquecer o tema e realizar uma pintura preocupada com a própria pintura. Rodrigo Naves assim escreveu na conclusão de sua coletânea de artigos O Vento e o Moinho: “Numa obra de arte, considero a forma mais relevante que o tema”. Há razões, sem dúvida, para se acreditar nisto. O artista consegue fazer ver o que foge do senso comum. Neste caso, é difícil deixar de citar a queixa que Degas fez à Mallarmé. Quando Degas afirmou que tinha muitas idéias, mas não conseguia colocá-las no papel, Mallarmé respondeu que um poema não se faz com ideias, mas com palavras. Uma pintura, provavelmente, não se faz também apenas com ideias, mas não se pode afirmar que um artista não se preocupe também com elas. Basta perceber o carinho com que muitos artistas tratam o tema trabalhado.

2.
Esta introdução é necessária para lançar luz sobre aspectos da obra de Claudia de Lara, artista preocupada tanto com a forma quanto pelos detalhes do mundo que retrata. Assim, será interessante primeiro verificar como Claudia investe no desenho e na cor. A artista estudou com afinco a serigrafia, o que lhe deu segurança para trabalhar com cores chapadas, procedimento que é difícil. Tudo começa com a fotografia, momento em que a artista treina o olhar para aquilo que virá. Essas imagens depois são trabalhadas no computador, ou seja, há intervenções nessas fotos com o objetivo de chegar a cores e texturas que busca. A partir daí, a artista parte para o desenho e depois para a cor. Normalmente sua escala é de 1,00 x 1,30 m. Há uma alternância entre as pinceladas pontilhadas e as chapadas.
É importante descrever o processo criativo de Claudia de Lara para demonstrar o quanto esse percurso é detalhado. Nada é por acaso. Antes de tudo, há o desenho, que a artista domina bem. Depois, há a escolha das cores, que exige uma sensibilidade cromática que a artista também domina bem. Porém, sua arte não se resume a estes dois aspectos. Não se pode esquecer que tudo começa com a observação e depois a fixação, através da fotografia, daquilo que chamou a atenção da artista. É bom lembrar que os grandes artistas nunca desprezaram a fotografia. Courbet soube usá-la a seu favor. Suas obras, por isto, não podem ser definidas como meros trabalhos realistas. A relação entre pintura e fotografia acabou por modificar toda a história da arte. Basta perceber o uso da fotografia e do vídeo pelos artistas contemporâneos.
A fotografia, no caso de Claudia de Lara, é um meio para chegar a um fim, como em Courbet. É um esboço. Um esboço que tem vida própria, sem dúvida. Neste caso, esses esboços permitem à artista o momento único da primeira impressão, um olhar intuitivo sobre o que poderá se materializar no futuro como obra acabada. Um olhar livre, que permite depois a artista trabalhar enquadramentos, cores, texturas. Há outro esboço, porém, após esse momento com a fotografia, resultado do trabalho com o computador (no qual há a mesma preocupação com enquadramentos, cores e texturas), e, enfim, o esboço direto na tela, através de linhas, que depois serão substituídas por manchas coloridas, meditadas desde o primeiro instante, desde o primeiro olhar.
Este processo, palavra interessante no caso de Claudia, descrito assim, parece infinito. É neste sentido de continuidade que uso esta palavra para mostrar o método da artista. Um método que exige rigor, paciência e controle sobre todas as etapas. A última etapa, o momento de pintar a imagem já trabalhada e meditada, exige uma análise especial.

3.
Claudia de Lara tem uma longa experiência com a pintura. Em 1995 já trabalhava com a figura, principalmente feminina. Um momento importante de sua formação foi o trabalho com cenários que realizou para o Teatro Guaira. Este momento permitiu que a artista trabalhasse com grandes desenhos aquarelados e com o efeito de profundidade que o palco exige. Depois buscou novos suportes, como a pintura sobre panos, até que uma série de viagens ao exterior mostrou a possibilidade do trabalho realista (como a artista define seus trabalhos figurativos). No entanto, retornou à pincelada impressionista (ainda segundo sua definição) com o objetivo de realizar uma pintura realista. A pintora explica no depoimento abaixo este aparente paradoxo. Para tanto a artista não utiliza cores prontas, ela própria prepara as massas de cor para obter as tonalidades desejadas. No atual momento, contudo, suas pesquisas estão em outro nível. A artista retornou à experiência com a serigrafia (ou melhor: ao método de trabalho com as cores chapadas) e aos panos. Sua atenção está no papel transformador da pintura, por isto sua figura passa por mudanças constantes. Agora esta figura aparece mais fragmentada e com uma familiaridade cada vez maior com a pintura abstrata.

4.
A artista trabalha com alguns conceitos que necessitam algum tipo de explicação. Pedi que falasse sobre algumas noções presentes em seu depoimento. Sua definição para pincelada impressionista é a seguinte: “É a mancha de cor, com pinceladas curtas, sem espalhar a tinta, depositando a tinta na tela com uma pincelada que não é ‘arrastada’, para não perder a cor da pincelada anterior”. Sobre a pintura hiper-realista disse o seguinte: “É aquela que pretende o efeito da fotografia”. Percebe-se que Claudia de Lara é uma artista que reflete sobre seu método de trabalho. Mais que isto, parece preocupada com a aplicação deste método. Atenta a tudo, ela explica assim as definições acima: “Estes dois conceitos não foram tirados de lugar nenhum e ao mesmo tempo de tudo que já ouvi até hoje”. Daí a tese de que seu trabalho passa, antes de tudo, por uma profunda meditação sobre os próprios meios artísticos.

5.
Claudia afirma que seu trabalho é bidimensional e figurativo. Esta afirmação é natural, já que a artista dedica-se com rigor à pintura. Daí a valorização desta forma de expressão. Não há, portanto, qualquer preocupação em criar algum tipo de atributo especial, há apenas a crença (crítica, porém) no papel primordial da pintura. E qual é este papel? Para a artista, cada momento é um desafio. Em seu depoimento percebemos o quanto de dúvidas e luta com a matéria existem na relação entre a artista e sua forma de arte. Nesses desafios constantes concentra-se o verdadeiro papel da pintura. Dito assim pode parecer um pouco abstrato. A artista parece afirmar que cada quadro, cada série, cada pincelada, representa um desafio a ser ultrapassado. Daí a inquietação artística de Claudia de Lara. Daí sua constante procura por um ângulo exato, uma pincelada diferente, uma tonalidade única. A pintura, portanto, possibilita captar, a cada momento, um ponto diferente do mundo. Por isto, todo artista, e Claudiasabe disto, tem obsessão pela experimentação. Neste caso, experimentar significa transformar. Basta, para tanto, observar o percurso de Claudia e sua busca por novos meios de expressão. A artista se preocupa tanto por seus modos técnicos (vide sua preocupação com o tipo de pincelada, por exemplo) quanto pelo objeto retratado. É possível, portanto, que um artista conjugue, admiravelmente, forma e tema. Este é o caso de Claudia de Lara, capaz de conjugar uma pintura preocupada com as próprias questões da pintura e preocupações com o mundo que irá pintar. O que se pode dizer é que tudo isto não é pouco. Daí o título deste artigo.

6.
O depoimento de Claudia de Lara sobre seu trabalho é revelador daquilo que chamei de processo. A artista narra com precisão tanto seu método de trabalho quanto sua formação, por isto vale a pena ler o texto na integra:

O meu início na pintura foi bem acadêmico com uma tendência sempre impressionista, apesar de certo barroquismo na valorização de claros/escuro. Quando resolvi pintar algo diferenciado foi quando fiz a primeira série com as figuras femininas, textura acrílica e colagem de retalhos. Isso foi em 95 e estava influenciada pelos quadros de Gustav Klimt, mas como não iria pintar as texturas tão bem quanto ele, resolvi fazer as colagens. Pensava na figura feminina como um descanso do olhar em meio a tanta informação de colagens e texturas. A figura feminina era uma pintura acadêmica e eu contratava as modelos para desenhar e também fotografava. Alguns amigos que viram meus desenho achavam parecidos com os de Egon Schiele, que eu já admirava antes de conhecer a obra de Gustav Klimt.
Trabalhei com cenários de 10 x 18m para o Teatro Guaira. Eram grandes desenhos aquarelados que davam todo o efeito de profundidade que se necessitava para o palco. Eu fazia muita aquarela, fiz curso de aquarela úmida em 94. Desenhava à nanquim e aquarelava. Então minha pintura nesta série se tornou "rala", sem muita massa de cor, depois da pintura inicial impressionista.
Resolvi entrar no atelier do Viriato, em 2003, para ter uma pintura boa. Já tinha recebido prêmios em salões e entrado em vários com desenhos, e instalações, mas queria a pintura. O Viriato gostou dos trabalhos no pano e então em 2004 fiz a série “Retalhos que Pertencem”, não mais com colagem e textura acrílica e sem a figura feminina acadêmica. Os panos eram costurados como uma colcha. Então eu trabalhava o desenho com giz carvão e as áreas de cor com a tinta aguada e giz pastel colorido e muito fixador no final.
Em 2005 fomos à Europa e vi muita pintura, vi coisas que eu sabia que tinha capacidade para fazer. Foi então que fiz a série “Cotidiano Desorientado”, em 2006. Resolvi fazer desenhos sobrepostos, como se não tivesse tempo para desenhar tudo que queria e "gastaria" os desenhos sobrepondo no mesmo trabalho. Muito desenho novamente, giz carvão, áreas chapadas com a cor preta e aguadas de acrílico novamente. Então comecei a ver a volta da pintura hiperrealista. Também já havia visto pintura assim em 2005 na Europa, nas feiras de Galerias como SP-Arte e ArteBA, em Buenos Aires, tudo em 2005. Foi o início da série "Slow-motion", em janeiro de 2007. Resolvi partir de onde tinha domínio, a pincelada impressionista, mas com o objetivo de pintura hiperrealista. Depois de tanto tempo trabalhando com desenho e pintura aquarelada, foi uma descoberta e então achei que sabia pintar, pois como não era com tinta a óleo tinha que fazer as massas de cor, não dava só para pintar com cores prontas da bisnaga de acrílico.
Depois, por causa da serigrafia cheguei nessa pintura chapada de agora. Estou pintando essa pintura chapada em um pano costurado. É outro desafio, várias mãos de tinta, coisa que nunca fiz no pano, pois era aguada de acrílica e carvão. Então ainda não sei no que vai dar, mas tive necessidade de voltar ao pano. Quanto à pintura como arte, é outra crise, pois a crítica diz que pintura não é mais arte, mas eu já sei que minha pesquisa é bidimensional e figurativa. Este trabalho de agora está até bem fragmentando parecendo abstrato.

7.
Em outro momento solicitei a Claudia de Lara que falasse mais sobre seu trabalho, recebi então este pequeno e revelador texto:

Uma percepção que tive um dia destes pintando nos tecidos costurados foi o seguinte: O pano estava pregado na parede, e era um tecido aveludado. Eu estava apoiada sobre ele enquanto pintava o pano ao lado, e eu tinha a sensação de estar "deitada" sobre um tapete. E estava me sentindo muito bem, era um momento prazeroso. Então pensei: porque estou me sentindo tão bem? Porque está gostoso estar aqui "deitada" nesse pano e pintando nele ao mesmo tempo. Será que tive alguma frustração de infância de querer pintar sobre o tapete ou a colcha da cama? Mas nunca tive essa vontade. Então pensei em algo relacionado à infância e me lembrei da minha mãe. Então me lembrei que quando eu tinha uns 10 anos ia com ela às compras de roupas para a nossa boutique e eu ajudava a escolher as roupas pelos mostruários de cores nos retalhos de tecidos. Então tive uma revelação: gosto de pintar no tecido porque é uma forma de trazer a imagem da minha mãe, que faleceu quando eu tinha 21 anos e foi uma história bem triste que não vem ao caso. Aí me lembrei que falavam que eu nunca tinha pintado nenhum retrato de minha mãe, lembrei-me de um documentário que faziam pesquisa com chipanzés, um com a mãe dele, outro com uma mãe-robô coberta com pele e outro com uma mãe-robô sem pele, só metal, e este último ficava com o comportamento anormal. Então vi que pintar no pano é como um aconchego. Para você pode parecer pouco neste mundo da arte contemporânea, mas para mim serviu como uma grande verdade, e eu gostei.

8.
Nada é pouco quando o assunto é arte. Os escritos de artistas representam um aspecto fundamental na busca de sentido que procuramos quando falamos em arte contemporânea. A reflexão que Claudia propõe sobre seu próprio trabalho é mais revelador que esta reflexão crítica. Ela lança luz sobre suas escolhas e decisões artísticas. Além disto, sua capacidade de auto-reflexão justifica o uso, como chave interpretativa de seu trabalho, das noções de processo e continuidade. Nesse processo, portanto, a pintura, para Claudia de Lara, representa também uma forma de auto-descoberta. Assim, a cada desafio, a artista dá continuidade ao seu jeito de ver o mundo e retratá-lo da forma que o percebe e sente.

 

* João Covielo


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