Claudia Lara
TEXTOS
A OBRA DA ARTISTA PLÁSTICA CLÁUDIA DE LARA - CHRISTIANE PETRELLI COELHO


As pinturas de Cláudia de Lara que participam da coletiva “Feminino plural”, no Mabu hotel, em Curitiba, remetem a um momento de atenção no que se considere corriqueiro cotidiano.

A automação dos gestos e do olhar, a banalização do real, limita e condiciona o estar no mundo. Em contrapartida, a vida se movimenta numa ordenação expressa continuamente, compensando o caos que o universo dinamiza em função do equilíbrio. A mais íntima ordenação que cotidianamente se configura através de regularidades biológicas, e que padroniza o ciclo da vida, compõe também nossos gestos e padrões de pensamento. A sugestão de um olhar aproximado, focado no detalhe um olhar de admiração em contraponto ao chamado olhar videoclipe revela sempre uma “parada obrigatória” do olhar, ainda que essa conotação sugira que estejamos plenos de referenciais para o diálogo que se estabeleça entre nós e a obra. Isso ocorre na medida do que se quer ver, do percurso que se faça rumo ao olhar que se disponibilize.

A expressão do artista pressupõe um olhar evocado da sua própria dimensão, potencializada na concepção de mundo e no domínio da natureza criativa. É nesse buraco negro, nessa dimensão concêntrica que se é atraído e projetado, não para um espaço vazio, senão para um espaço imaginário estratosfera do universo interior que dimensiona o alcance do olhar pelo equilíbrio dinâmico dado na conexão entre forma-conteúdo da obra.

As pinturas de Cláudia de Lara contemplam a poética do cotidiano numa visão de um voyeur atento, que recolhe do simples gesto aparentemente banal, um sentido amplo de vida, a jorrar pelas trilhas nas ondulações que sua linha gráfica delineia: configurações de afetividades, linguagem simbólica, metáfora da condição da vida como constante movimento, sintetizando no gesto que expressa a expressão. Expressar-se é, em si, a condição que nutre o artista como forma de existir.

Ao enfocar gestos do cotidiano, a artista substancia sua poética dando sentido ao sensível, concentrando na sua obra um discurso estético atualizante, crítico à respeito do condicionamento de um homem banido de sua própria natureza perceptiva, desvinculada do natural; condicionada por interesses políticos e econômicos que determinam e manipulam desde a esteriotipização de seu pensamento até seus gestos sensoriais.
A Abordagem do cotidiano provoca em nós significados que dão forma e organizam a experiência de contextos íntimos, que por sua vez, estruturam e organizam a percepção na visão filtrada pela lente de cada um.

A proposição plástica de guarda-chuvas e pernas que se entrelaçam no movimento casual da chuva, revela a força gráfica contida no desenho e na estrutura composicional da artista. Imbuir-se desse instrumental visual, sugere sutil domínio de linguagem, o que acentua a força de sua obra. Figuras e fundos dançam em seus quadros ao som de uma musica, um ritmo imaginário. Mãos, pernas, vestidos, tecidos se movimentam, compondo uma dança. Um casal vem andando, um gato está olhando, pessoas estão sobre uma mesa talvez almoçando, mulheres jogam xadrez: todos compondo um gesto, um estar acontecendo, que não se congela na captura do momento, mas se mantém assim: metafórico, sugestivo. Em contrapartida a discursos extremamente complexos e distantes de nossa percepção - intelectualizados e burocratizados, expressos na linguagem artística contemporânea - Cláudia nos remete por um outro viés, ao mais simples: compor o cotidiano lhe dando sentido, rumo a um olhar de atenção, de admiração: olhar sensível que provoca no ver um entrever.

Ao se desconsiderar a figura inteira, cortando-lhes uma parte do rosto, a artista convoca, pela forma, uma conotação de valor; considera, sobretudo, o gesto corporal como conotação explícita na linguagem do homem, concentrando-lhe sentido: gesto que revela muito mais do que aparenta, que revela um caráter, uma personalidade, o que por vezes o rosto com suas máscaras esconde. A matéria pictórica reveste-se de uma poética da maciez, da plasticidade, do tecido como conotação simbólica de uma afetividade, esta, imprescindível no uso e função humana, expressa e vinculada a relações de composição de espaço físico, como espaços do próprio corpo, nas suas diversas funções de agasalhar, ornamentar, cobrir, vestir, enfim, na qualidade plástica que a caracteriza: sua aderência ao espaço. Cláudia de Lara vem, de longo tempo, criando suas obras com esse material. Nessa exposição inverte-se a função dos tecidos: o que antes ornamentava e vinha a fazer parte de suas figuras, ganha outra conotação: converte-se a fundos, sobre os quais, numa relação de osmose, integra-se às figuras, interagindo em seus gestos, numa conotação metafórica que o tecido provoca. A composição dos panos denota o costurar de um tempo, de uma trama ontológica que designa o próprio ato ao se compor. Lembra-me a metáfora sugerida pela canção de Gil, “a linha e o linho”, em que se costura a ação do tempo pela conjunção entre a linha, delineada pelo querer, pelo afeto, pelo sentimento, e o linho, que estrutura esse querer, como um meio que possibilita a agulha costurar: um ninho, um útero, nas condições de um ambiente que prospera, germina, desenvolve. A linha da artista desenhando pessoas e seres, compondo ações, são a meu ver, linhas que costuram histórias, memórias, pelos panos que ela converte em colchas quentes e macias, de tramas grossas e consistentes, resistentes às intempéries externas. Tramas que se entrelaçam na ação do tempo, fortificando estruturas, edificando muralhas, criando em seu corpo cascas sobrepostas, embalando-se como uma cebola. Simultaneamente, como um rejunte aderente por dentre tramas de matéria elástica e flexível - como seiva, seda, como um corpo mimético adaptando-se continuamente ao ambiente - não para criar musgos e limos e se asfixiar, senão num movimento em direção ao fluxo do dia e da noite, das constantes marés, das migrações das lagostas pelo longe do oceano, das memórias nos troncos das árvores, da formação das conchas, do movimento espiralado justificando a vida: do íntimo de uma forma natural ao simbólico no olhar de nexo e admiração. A poética de Cláudia de Lara simboliza o movimento do cotidiano num olhar fractal: ”É bastante viver /em síntese o concomitante /Somos séculos / no milésimo /de cada instante” (BITTENCOURT, Roberto José, 1985), olhar que metaforiza horizontes poéticos, intercedidos pela sensibilidade de Claudia, ao ornamentar nosso horizonte com suas pinturas.

* Christiane Petrelli Coelho
Setembro de 2004

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