Claudia Lara
TEXTOS
A ARTISTA DA HUMANIDADE - JOEL SAMWAYS

 

Em sua vida na arte, a artista plástica Claudia de Lara tem construído um provocante viés do dia-a-dia na contemporaneidade: apressado, nervoso, atarefado, nostálgico, estressado, angustiado, decidido, ousado. Claudia torna visível a busca desorientada de querer pensar muitas coisas, estar em muitos lugares, desempenhar muitos papéis, viver o ontem-hoje-amanhã. Os contrastes do preto e do branco, demonstrando a fase severa, áspera, do processo existencial, deixam ver, no entanto, cores que teimam emergir, vitalizando o fenômeno da vida.

Seu argumento consegue ultrapassar a denúncia, a tensão, na beleza do desenho, o risco corrido que alinhava os pedaços, compõe formas, dá ritmo, desafia, enfim, a uma harmonia possível. Desprendida de compromissos com qualquer permanência nas impermanências da vida, a artista faz modulações. Quer, por outros vieses, tocar-nos a emoção, sensibilizando o olhar espiritual para as coisas, as pessoas e o mundo, fazendo-nos ver a vida “slow-motion”. Propõe, daí, a percepção de pormenores num quase hiper-realismo, por uma imaginária lente angular, ou com filtros, deformando levemente as figuras, que se movimentam vagarosamente, humanizando as coisas nas pessoas e as pessoas nas coisas, resgatando artisticamente, em acrílica sobre tela, clichês de nossa pop-art. E na moldura de seu processo criativo, por princípio, meio e fim, por convicção, seu grande suporte: retalhos de tecidos. Distintos, cada qual com sua trama, cada qual com sua estampa, tão incompatíveis entre si agrupam-se esteticamente para amparar, compor, harmonizar os diferentes, as diferenças, numa totalidade maior, e eis que surge a pintura, o desenho, o que sempre pertenceu aos retalhos que se pertencem uns aos outros, mas não se davam conta. Tal qual a sociedade humana.

Claudia de Lara é uma artista da humanidade, pela humanidade, para a humanidade.

* Joel Samways
escritor

Direitos Reservados - Claudia Lara

By Arte Macao